Os tempos iam difíceis! Maria era uma jovem casada, mãe de uma pequenina de dois anos que embora encantadora, tinha tido logo desde os primeiros meses de nascida, algumas complicações sérias de saúde!
Como é natural, sendo aquela a primeira filha, por vezes surgiram alturas em que o desalento e as aflições se tornavam tão difíceis de suportar para a jovem mãe, que as lágrimas lhe pareciam ser o seu único alívio. Mas, os problemas de saúde da pequenita nem sequer eram tudo, pois a eles juntava-se também, o facto de quase todos os dias, o marido voltar aborrecido do trabalho para casa. E, umas vezes por umas razões, outras por outras, era difícil existir um momento em que o senhor Filipe tivesse paciência para cuidar da filhinha e dedicar um pouco de atenção à esposa.
Apesar de Maria fazer todos os esforços para descobrir a tão desejada felicidade conjugal, muitas vezes para sua grande tristeza, a sorte parecia não estar do seu lado. Em certas alturas, ele dizia-lhe que os culpados dos problemas dele eram os patrões, por causa das más condições de trabalho em que o “obrigavam” a desempenhar a sua profissão e que era por isso que andava sempre nervoso e fazia tantos disparates.
Como era uma pessoa de grande bondade, dotada de uma coragem e de uma fé que pareciam ser à prova de qualquer azar, Maria lá se esforçava por o compreender uma vez mais e, com o coração a transbordar-lhe de vida e esperança, fazia todos os possíveis, para dignificar o seu casamento! Aliás, de tal maneira queria ser bem sucedida nos seus planos, que sempre que escrevia cartas aos pais, dizia-lhes para não os fazer sofrer ainda mais, que era muito feliz.
Mas, houve um dia em que tudo desmoronou na vida de Maria! Logo que o marido chegou a casa, ela reparou que ele trazia cara “de poucos amigos” e que vinha muito zangado do trabalho. Embora não gostasse nada do que via, fez um esforço e lá foi como de costume, dar-lhe um beijinho de boas-vindas.
Com muita calma e paciência, reuniu todas as suas forças da melhor maneira que sabia e tentou que o marido lhe contasse o que se tinha passado no trabalho dele, para ele ter chegado a casa assim tão revoltado. Em poucas palavras, ele respondeu-lhe com modos bruscos e num tom de voz bastante alterado:
- Hoje discuti com um colega e acabei por o agredir. Ele garantiu-me que vai apresentar uma queixa contra mim e que isto não vai cair no esquecimento...
- O quê? E agora, o que é que pensas fazer, para tentar resolver esse problema da melhor maneira possível?
- Nada, não vou fazer nada. Então ele que apresente a tal queixa e depois há-de ver-se... E já teve muita sorte por outros colegas nos terem vindo separar...
Como se tivesse uma voz dentro do coração a segredar-lhe certas ideias, a jovem mãe foi ao berço buscar a pequenina que entretanto tinha começado a chorar e procurou acalmá-la da melhor maneira que sabia. A pouco-e-pouco, a bebé foi ficando sossegada e a tranquilidade foi regressando àquela casa, enquanto que lentamente, o tom das conversas ia voltando à naturalidade do costume.
Algumas semanas mais tarde, chegou uma carta importante do tribunal para o senhor Filipe. As notícias não eram nada animadoras e, como já era habitual, regressou ao mau-humor e azedume que o costumavam caracterizar, sempre que as coisas não lhe corriam de feição.
Após ter meditado longamente em tudo o que estava a acontecer-lhe, voltou-se para a esposa e disse-lhe:
- Maria, tomei uma decisão. Começa a preparar as coisas, pois no fim deste mês vamos deixar este maldito lugar e regressaremos à cidade onde vivem os nossos pais. Amanhã sem falta, vou dizer isso mesmo aos meus patrões e depois veremos...
- O quê? Tu ficaste doido? Então vamo-nos embora assim sem mais nem para quê?
- Maria não discutas comigo, não me faças perder a paciência! Já sabes muito bem que quando digo alguma coisa é para se cumprir...
- Mas tu nem emprego tens e indo para lá, vamos viver de quê? E aonde é que iremos morar?
- Depois vê-se, berrou-lhe com impaciência. No fim do mês saímos daqui e não se fala mais nesse assunto, fiz-me entender ou não?
A jovem não respondeu. Baixou os olhos e afastou-se para longe do marido, não fosse às vezes dar-se o caso de, ele começar a implicar por outra coisa qualquer e dar-lhe uma ou duas bofetadas, como já antes tinha acontecido...
Entre lágrimas e orações, com a bebé encostada ao peito, ia tentando encontrar uma resposta para tudo o que estava a acontecer-lhe, pois realmente, ela nem sabia muito bem o que havia de pensar de toda aquela situação. Mas, como já tinha compreendido que o marido era uma pessoa com um feitio difícil, achou melhor não argumentar mais e resolveu começar então a fazer os preparativos para a partida.
Nas semanas seguintes, o senhor Filipe tratou de pôr um anúncio no jornal para alugar aquela casa, vendeu as mobílias, os escassos electrodomésticos e outros bens que possuíam. Depois, escreveu às respectivas famílias para as informar da sua decisão e para ver se podiam ficar a viver na casa dos pais dele ou da esposa, até terem um sítio condigno para se instalarem.
Quando chegou o dia da partida, muitas vizinhas e amigas abraçaram Maria ternamente e garantiram-lhe que jamais a iriam esquecer a ela e à sua bébé. A seguir, pediram-lhe entre lágrimas que lhes escrevesse de vez em quando e, que se alguma vez ela voltasse àquela cidade, não deixasse de as ir visitar!
Como era uma pessoa bastante sensível, Maria ficou imensamente comovida com todas aquelas manifestações de apreço e carinho, pois ao longo dos três anos em que ali havia morado, tinha feito bonitas e sólidas amizades. Por isso, sem perder de vista os ponteiros do relógio, ia distribuindo como podia, abraços, beijos e palavras de alento e gratidão a todos os que a rodeavam.
Poucas semanas depois de ter regressado ao local onde nascera, começou a procurar um emprego, pois tinha uma filhinha pequena para criar. Para começar, dirigiu-se àquele que tinha sido o seu antigo local de trabalho, mas aí foi informada de que naquela altura, não havia lá lugar para ela. No entanto, prometeram-lhe que logo que houvesse uma vaga, não se esqueceriam dela e que a chamariam novamente.
Maria agradeceu e saiu decidida a não baixar os braços! Assim, sem nunca perder as esperanças, lá foi batendo a uma porta e a outra, até que ao cabo de algumas tentativas, conseguiu arranjar uma ocupação que lhe permitia ganhar um pequeno salário.
Ora uns meses depois de ter ido ao seu antigo local de trabalho, recebeu uma carta de lá, na qual era convocada para ir a uma entrevista, tal como lhe haviam prometido. Maria ficou radiante de alegria e, nessa noite ao dizer as suas orações, agradeceu muito a Deus-Pai pela nova oportunidade que acabava de ser-lhe concedida.
Aos poucos, as condições monetárias da jovem mãe tornaram-se mais animadoras. E certo dia, uma colega de trabalho falou-lhe de uma empresa de grande renome que estava a recrutar profissionais jovens para os seus quadros.
Como tinha consciência de que era uma boa profissional no seu ramo, Maria seguiu o conselho da colega e inscreveu-se para ir a uma entrevista. Poucos dias mais tarde, foi chamada como tinha previsto.
Ao princípio, tudo correu lindamente! A entrevistadora era uma pessoa muito simpática e de modos bastante afáveis, o que fez com que a jovem profissional se sentisse à-vontade para responder a todas as perguntas que ela lhe colocava. Mas, a certa altura da reunião, surgiu um imprevisto no qual Maria não havia pensado.
Com toda a calma, a entrevistadora disse-lhe em determinado momento:
- Pois muito bem, a senhora parece-me ser uma óptima profissional e considero que tem perfil para vir a trabalhar connosco. Mas, temos aqui um problema um tanto delicado para resolver. E mantendo sempre a afabilidade na voz, continuou:
- Creio que a senhora está grávida, não é assim?
- Sim, é realmente como diz, respondeu Maria de maneira solícita. Estou grávida de quase dois meses, mas qual a razão por que pergunta?
- Ora bem, pergunto porque a nossa empresa não admite mulheres grávidas e portanto, se quiser vir trabalhar connosco, terá de arranjar uma maneira de “livrar-se” desse problema.
Maria olhou-a profundamente nos olhos e perguntou calmamente:
- Deseja saber mais alguma coisa acerca das minhas competências profissionais?
- Não senhora Dona Maria, creio que por agora já tenho todos os elementos de que necessito.
- Então se me dá licença... A jovem ergueu-se respeitosamente, pegou nas suas coisas e saiu sem dizer mais uma palavra que fosse.
Os dias que se seguiram não foram nada fáceis para Maria. Embora não tivesse contado nada a ninguém do que se tinha passado naquela entrevista, desde aquele momento em diante, ela passou a viver num profundo dilema interior! Nas suas orações pedia fervorosamente a Nossa Senhora que a ajudasse, pois apesar de o dinheiro lhe fazer muita falta, uma vez que habitava com o marido num pequeno barraco sem as mínimas condições de higiene, conforto e bem-estar, não queria de maneira nenhuma fazer uma asneira da qual viesse a arrepender-se para o resto da vida!
Duas semanas depois daquele encontro, tomou uma decisão! Passando a mão ternamente pela sua barriga, que aos poucos, ia ficando cada vez mais visível e arredondada, disse muito baixinho para o bebé que nela trazia:
- Meu querido filho ou filha, bem sei que ainda és muito pequenino, mas quero que saibas que já te amo com todo o meu coração e que não há nada no mundo, nem ninguém que me faça mudar de ideias! Fica tranquila, que vou proteger-te e amar-te ao longo de todos os dias da minha vida e prometo que hei-de fazer por ti, tudo o que tenho feito pela tua irmãzinha!
Nessa noite ao jantar, muito embora não soubesse explicar bem porquê, o senhor Filipe achou que os olhos da esposa tinham um brilho e uma vivacidade ainda mais belos do que era costume. No rosto dela havia uma encantadora expressão de ternura e ele, sensibilizado pela delicadeza dos seus modos, a certa altura ajoelhou-se diante dela e beijando-lhe as mãos, pediu-lhe perdão por todas as vezes em que a tinha feito sofrer sem ela o merecer.
- Luz da minha vida, eu amo-te muito e estou certa de que Deus há-de ajudar-nos. Claro que temos de ser optimistas e acreditar que seremos capazes de melhorar o nosso futuro, o da nossa filhinha e o da criança que trago no ventre.
Quando começaram a soprar os primeiros ventos de Outono, Maria deu à luz uma linda bebé de faces muito rosadas e com uns olhos brilhantes e vivos como os do pai! De regresso à sua habitação humilde, enquanto contemplava o rosto do anjo que dormia tranquilamente no seu berço, lembrou-se de repente, daquela altura em que tinha ido à entrevista para o novo emprego e por momentos, uma nuvem ensombrou-lhe o semblante.
Mas, alguns segundos depois, recordou-se da altura em que tinha pedido auxílio a Nossa Senhora e um novo brilho surgiu no seu olhar! Fixou então longamente, a bonita imagem da Rainha do Céu que tinha em cima da sua cómoda e por instantes, teve a nítida impressão de sentir que Ela lhe sorria!
Com o coração a transbordar-lhe de alegria e gratidão, agradeceu comovida a Deus pelo facto de lhe ter concedido ser mãe de uma bebé tão bonita. A seguir, no silêncio do seu coração, falou-Lhe da satisfação que sentia por nos útimos meses, o marido se haver tornado mais compreensivo para ela e para a filhinha de três anos.
Por fim, deu-Lhe ainda muitas graças, por nas horas de maior desespero e aflição, sempre a ter incentivado a percorrer o caminho seguro do amor!
Sónia queirós.
Nas vidas de muitos de nós, com as histórias que nos contaram, as nossas avós (tendo ou não consciência disso) tornaram-se luzeiros permanentes a iluminar cada passo dos nossos caminhos. Por isso mesmo, com cantigas, histórias, brincadeiras e conselhos muito sérios, tornaram-se presenças constantes mesmo quando os "ponteiros da máquina do tempo", as avisaram que era chegada a hora de "fazerem as malas e partirem", rumo ao infinito!
Mostrar mensagens com a etiqueta amor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta amor. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 1 de novembro de 2011
sexta-feira, 29 de julho de 2011
A Maravilhosa Exposição de Amor!
A noite já havia descido sobre a casa daquela família. Na cozinha, num ambiente muito acolhedor, faziam-se os últimos preparativos para o jantar. Na sala-de-jantar, ia-se pondo a mesa, pois esse era o local onde a família se reunia habitualmente, para tomar as refeições principais.
De repente, a filha mais nova do casal entrou em casa, um pouco mais cedo do que era costume, o que gerou a surpresa e o agrado geral. Logo depois de ter cumprimentado a todos com um beijinho de boa-noite, a jovem dirigiu-se à mãe e disse-lhe num tom afectuoso:
- Mãe, queria pedir-te um favor.
Ainda a resposta afirmativa da mãe mal se tinha feito ouvir e, já a jovem descia de novo os degraus da casa até à porta da entrada, para os voltar a subir um ou dois minutos depois. Nos lábios trazia um sorriso cheio de alegria e no colo, uma encantadora cadelinha recém-nascida. A amável visita, vinha confortavelmente instalada dentro de um cestinho de palha acolchoado e olhava muito atenta para tudo o que a rodeava. Assim que chegou junto da mãe, a jovem passou-lho para as mãos e disse-lhe:
- “Chama-se Kiamy, e queria pedir-te se não te importas de tomar conta dela durante os próximos dois meses, pode ser?...”
Enquanto a mãe afagava ternamente o pêlo macio da recém-chegada hóspede, outra das filhas do casal entrou na cozinha para ir buscar os talheres e ficou igualmente cativada pela beleza e encanto da pequena Kiamy. Com todo o cuidado que requer qualquer recém-nascido (seja ele humano ou animal), começou de imediato a fazer-lhe carinhosas festinhas, deu-lhe muitos beijinhos na cabeça, no focinho e nas orelhas aveludadas, para mostrar-lhe o quanto ela era bem-vinda ao aconchego daquele lar. Em troca, a amável Kiamy ia retribuindo gentilmente todos os carinhos de que era alvo, ora lambendo o rosto e as mãos das que lhe faziam meiguices, ora agitando a sua pequena cauda como sinal de que também estava muito feliz com aquela recepção de boas-vindas .
Depois foi a vez do chefe da casa, que ao vê-la enfeitada com um lindo lacinho vermelho que trazia no pescoço e que a tornava ainda mais graciosa, lhe fez também muitas festinhas. Pouco tempo depois, a jovem que terminara de pôr a mesa para o jantar, pediu ao pai para lhe deixar pegar mais um bocadinho na cadelinha, ao que ele acedeu de boa vontade, mas recomendando-lhe que tivesse muito cuidado para não a deixar cair.
Durante o jantar daquela noite, a ilustre visitante andou de colo em colo e todos falavam baixo, para não incomodar o sono da “mais recente elemento do lar”. Na televisão, os apresentadores do Telejornal, também concordaram que deviam reduzir um pouco mais o volume, para que tudo decorresse com a maior tranquilidade e paz possíveis!
Contudo, nem tudo foram rosas para a pequena cadelinha! É que o Dinho, um cão-de-água muito meigo e espertalhão, que era já um dos habitantes antigos da casa, devido a um certo conjunto de razões “muito pessoais”, ao princípio não pareceu achar assim lá grande piada àquela encantadora bolinha de pêlo! Depois de a farejar minuciosamente, aos poucos lá a foi começando a aceitar como nova companheira, mas isso nem sempre era coisa fácil e muito menos pacífica.
Nos primeiros dias depois da sua chegada, a pequena Kiamy era uma cadelinha triste e tímida, gemia com frequência durante a noite e tinha um sono muito agitado, o que não era para admirar. É que, segundo se veio a saber, alguém com pouco coração, a havia abandonado a ela e aos seus irmãozinhos, sem dó nem piedade, ao frio da noite, sem água nem comida e nada preocupado com o futuro daqueles pobres cãezinhos indefesos.
Mas a estrela da sorte da pequena Kiamy estava com ela! Pouco tempo depois de ter vivido esse triste episódio, numa tarde soalheira de Outono, um casal de jovens namorados que haviam decidido ir visitar uma exposição de animais para adopção, descobriram-na junto dos irmãozinhos, deitada num pequeno cobertor. A menina perguntou à senhora que estava a cuidar deles, se poderia pegar-lhe ao colo e, de imediato “apaixonou-se” pelos seus encantos e fragilidades.
Foi certamente, amor à primeira vista! Depois de devidamente vacinada, com o chip já colocado e transportando um pacote de comida na mão, levou-a ternamente consigo para casa e, desse momento em diante, tudo mudou de forma definitiva para a “nova membro” da família Queirós.
À medida que os dias foram passando, rodeada de atenções e cuidados, a linda pastora belga de olhos azuis e pelagem bege-amarelada, foi-se tornando uma cadela alegre e brincalhona, muito meiga e graciosa, dotada de uma vivacidade e energia contagiantes. Para ela, todas as horas eram boas para brincar, caminhar ao ar livre e correr atrás ora de bolas, paus, garrafas de água vazias, ora de coelhos, galos, passarinhos e de outros animais que raramente conseguia apanhar. Lentamente e quase sem darem por isso, algum tempo depois da sua chegada, ela tinha já conquistado inteiramente os olhares e corações dos habitantes daquela residência, tanto dos que caminhavam sobre dois pés, como daquele que se deslocava em cima de quatro patas.
Claro que por vezes, surgiam situações um tanto espinhosas! Esse era por exemplo o caso, das alturas em que Kiamy roía as meias, as roupas interiores das pessoas da casa, os pés das cadeiras e das mesas de madeira, os cobertores e edredons das camas, isso para nem falar dos odoríferos chichis com os quais humedecia por vezes, a carpete da sala-de-jantar! No entanto, mal era chamada à atenção, logo Kiamy começava a abanar viva e graciosamente a sua longa cauda felpuda, a lançar uns olhares cheios de expressivas desculpas e a preparar-se para oferecer umas delicadas lambidelas ternurentas a quem a advertia, gestos aos quais ninguém conseguia resistir e muito menos, ficar indiferente!
Noutras ocasiões, era o elemento canino, que tinha de suportar a sua quota parte de apuros. Isso acontecia, quando a sua nova companheira se decidia a persegui-lo pelas divisões da casa, para lhe morder a cauda ou tentar mamar nas mamitas dele, que verdade seja dita, estavam mais secas do que certas palhas num palheiro! Essas eram com certeza, algumas das razões pelas quais de vez em quando, lá se ouvia o ilustre veterano a rosnar-lhe ou a ladrar-lhe com força, o que fazia com que durante uns minutos ela se agachasse e ficasse realmente em sentido. Mas passado algum tempo, depois de recuperar do susto inicial, a pequena Kiamy retomava as suas investidas, pois parecia divertir-se imenso com o novo amiguinho e as brincadeiras que faziam juntos.
Apesar de aos poucos se terem tornado bons companheiros, Dinho cedo percebeu (que não tinha outro remédio), senão “aturar as tropelias daquela novata irrequieta” como podia, enquanto não se lhe esgotava a pouca paciência de que dispunha. No entanto, sempre que algo lhe desagradava seriamente, ele logo tratava de repor a ordem.
Quando numa manhã um tanto fresca de Novembro mas agradavelmente ensolarada, a pequena Kiamy foi pela primeira vez, visitar quase pela “própria pata”, o senhor Doutor para ver como andava de saúde, uma coisa se tornou muito clara nos corações daqueles que lá a acompanharam: se era verdade que pouco ou quase nada sabiam acerca dos dias tristes do seu passado, era igualmente certo que tudo fariam em prol do seu bem-estar no presente e no futuro. Aliás, só queriam proporcionar-lhe as mesmas condições de segurança, conforto e bem-estar que tinham dado ao Dinho, para que ela viesse também a ser uma cadela alegre e feliz, para que crescesse forte e saudável, como merecem todos os animais do mundo!!!
Sónia Queirós.
De repente, a filha mais nova do casal entrou em casa, um pouco mais cedo do que era costume, o que gerou a surpresa e o agrado geral. Logo depois de ter cumprimentado a todos com um beijinho de boa-noite, a jovem dirigiu-se à mãe e disse-lhe num tom afectuoso:
- Mãe, queria pedir-te um favor.
Ainda a resposta afirmativa da mãe mal se tinha feito ouvir e, já a jovem descia de novo os degraus da casa até à porta da entrada, para os voltar a subir um ou dois minutos depois. Nos lábios trazia um sorriso cheio de alegria e no colo, uma encantadora cadelinha recém-nascida. A amável visita, vinha confortavelmente instalada dentro de um cestinho de palha acolchoado e olhava muito atenta para tudo o que a rodeava. Assim que chegou junto da mãe, a jovem passou-lho para as mãos e disse-lhe:
- “Chama-se Kiamy, e queria pedir-te se não te importas de tomar conta dela durante os próximos dois meses, pode ser?...”
Enquanto a mãe afagava ternamente o pêlo macio da recém-chegada hóspede, outra das filhas do casal entrou na cozinha para ir buscar os talheres e ficou igualmente cativada pela beleza e encanto da pequena Kiamy. Com todo o cuidado que requer qualquer recém-nascido (seja ele humano ou animal), começou de imediato a fazer-lhe carinhosas festinhas, deu-lhe muitos beijinhos na cabeça, no focinho e nas orelhas aveludadas, para mostrar-lhe o quanto ela era bem-vinda ao aconchego daquele lar. Em troca, a amável Kiamy ia retribuindo gentilmente todos os carinhos de que era alvo, ora lambendo o rosto e as mãos das que lhe faziam meiguices, ora agitando a sua pequena cauda como sinal de que também estava muito feliz com aquela recepção de boas-vindas .
Depois foi a vez do chefe da casa, que ao vê-la enfeitada com um lindo lacinho vermelho que trazia no pescoço e que a tornava ainda mais graciosa, lhe fez também muitas festinhas. Pouco tempo depois, a jovem que terminara de pôr a mesa para o jantar, pediu ao pai para lhe deixar pegar mais um bocadinho na cadelinha, ao que ele acedeu de boa vontade, mas recomendando-lhe que tivesse muito cuidado para não a deixar cair.
Durante o jantar daquela noite, a ilustre visitante andou de colo em colo e todos falavam baixo, para não incomodar o sono da “mais recente elemento do lar”. Na televisão, os apresentadores do Telejornal, também concordaram que deviam reduzir um pouco mais o volume, para que tudo decorresse com a maior tranquilidade e paz possíveis!
Contudo, nem tudo foram rosas para a pequena cadelinha! É que o Dinho, um cão-de-água muito meigo e espertalhão, que era já um dos habitantes antigos da casa, devido a um certo conjunto de razões “muito pessoais”, ao princípio não pareceu achar assim lá grande piada àquela encantadora bolinha de pêlo! Depois de a farejar minuciosamente, aos poucos lá a foi começando a aceitar como nova companheira, mas isso nem sempre era coisa fácil e muito menos pacífica.
Nos primeiros dias depois da sua chegada, a pequena Kiamy era uma cadelinha triste e tímida, gemia com frequência durante a noite e tinha um sono muito agitado, o que não era para admirar. É que, segundo se veio a saber, alguém com pouco coração, a havia abandonado a ela e aos seus irmãozinhos, sem dó nem piedade, ao frio da noite, sem água nem comida e nada preocupado com o futuro daqueles pobres cãezinhos indefesos.
Mas a estrela da sorte da pequena Kiamy estava com ela! Pouco tempo depois de ter vivido esse triste episódio, numa tarde soalheira de Outono, um casal de jovens namorados que haviam decidido ir visitar uma exposição de animais para adopção, descobriram-na junto dos irmãozinhos, deitada num pequeno cobertor. A menina perguntou à senhora que estava a cuidar deles, se poderia pegar-lhe ao colo e, de imediato “apaixonou-se” pelos seus encantos e fragilidades.
Foi certamente, amor à primeira vista! Depois de devidamente vacinada, com o chip já colocado e transportando um pacote de comida na mão, levou-a ternamente consigo para casa e, desse momento em diante, tudo mudou de forma definitiva para a “nova membro” da família Queirós.
À medida que os dias foram passando, rodeada de atenções e cuidados, a linda pastora belga de olhos azuis e pelagem bege-amarelada, foi-se tornando uma cadela alegre e brincalhona, muito meiga e graciosa, dotada de uma vivacidade e energia contagiantes. Para ela, todas as horas eram boas para brincar, caminhar ao ar livre e correr atrás ora de bolas, paus, garrafas de água vazias, ora de coelhos, galos, passarinhos e de outros animais que raramente conseguia apanhar. Lentamente e quase sem darem por isso, algum tempo depois da sua chegada, ela tinha já conquistado inteiramente os olhares e corações dos habitantes daquela residência, tanto dos que caminhavam sobre dois pés, como daquele que se deslocava em cima de quatro patas.
Claro que por vezes, surgiam situações um tanto espinhosas! Esse era por exemplo o caso, das alturas em que Kiamy roía as meias, as roupas interiores das pessoas da casa, os pés das cadeiras e das mesas de madeira, os cobertores e edredons das camas, isso para nem falar dos odoríferos chichis com os quais humedecia por vezes, a carpete da sala-de-jantar! No entanto, mal era chamada à atenção, logo Kiamy começava a abanar viva e graciosamente a sua longa cauda felpuda, a lançar uns olhares cheios de expressivas desculpas e a preparar-se para oferecer umas delicadas lambidelas ternurentas a quem a advertia, gestos aos quais ninguém conseguia resistir e muito menos, ficar indiferente!
Noutras ocasiões, era o elemento canino, que tinha de suportar a sua quota parte de apuros. Isso acontecia, quando a sua nova companheira se decidia a persegui-lo pelas divisões da casa, para lhe morder a cauda ou tentar mamar nas mamitas dele, que verdade seja dita, estavam mais secas do que certas palhas num palheiro! Essas eram com certeza, algumas das razões pelas quais de vez em quando, lá se ouvia o ilustre veterano a rosnar-lhe ou a ladrar-lhe com força, o que fazia com que durante uns minutos ela se agachasse e ficasse realmente em sentido. Mas passado algum tempo, depois de recuperar do susto inicial, a pequena Kiamy retomava as suas investidas, pois parecia divertir-se imenso com o novo amiguinho e as brincadeiras que faziam juntos.
Apesar de aos poucos se terem tornado bons companheiros, Dinho cedo percebeu (que não tinha outro remédio), senão “aturar as tropelias daquela novata irrequieta” como podia, enquanto não se lhe esgotava a pouca paciência de que dispunha. No entanto, sempre que algo lhe desagradava seriamente, ele logo tratava de repor a ordem.
Quando numa manhã um tanto fresca de Novembro mas agradavelmente ensolarada, a pequena Kiamy foi pela primeira vez, visitar quase pela “própria pata”, o senhor Doutor para ver como andava de saúde, uma coisa se tornou muito clara nos corações daqueles que lá a acompanharam: se era verdade que pouco ou quase nada sabiam acerca dos dias tristes do seu passado, era igualmente certo que tudo fariam em prol do seu bem-estar no presente e no futuro. Aliás, só queriam proporcionar-lhe as mesmas condições de segurança, conforto e bem-estar que tinham dado ao Dinho, para que ela viesse também a ser uma cadela alegre e feliz, para que crescesse forte e saudável, como merecem todos os animais do mundo!!!
Sónia Queirós.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


