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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Uma Aventura no Oceanário








Foi um passeio maravilhoso! Os meninos daquela escola andavam animadíssimos com a ideia de dar um “saltinho” até ao Oceanário, desde o início da semana e, verdade seja dita, assim que se começaram a discutir os planos para a fabulosa viagem, parecia que os dias nunca mais queriam passar!
Mas a pouco e pouco, crianças e professores lá foram gizando as melhores estratégias para o dia da grande aventura, com muito cuidado e atenção, porque era fundamental que tudo decorresse da melhor maneira possível e que ninguém se magoasse. É que aquele teria que ser um dia inesquecível e portanto, todos teriam de fazer um grande esforço para que mais tarde, ele pudesse ser lembrado com muita alegria e saudade!
E finalmente, a tão desejada data chegou! A joaninha, naquela noite, mal tinha conseguido pregar olho. Por isso, quando a mãe a foi chamar para levantar-se, ela deu um pulo e saltou cheia de energia da cama, o que nela era coisa pouco habitual!
Sem demoras nem hesitações, foi logo tratar da sua higiene diária, de vestir-se e pentear-se e nem foi preciso apressá-la para tomar o pequeno-almoço. No caminho em direcção à escola, perguntou pela terceira vez, as horas à mãe, porque todas as crianças tinham que estar sem falta, de manhãzinha bem cedo no portão da entrada.
Claro que naqela manhã, a mãe da Joaninha não teve outro remédio senão o de sair de casa com uma antecedência maior do que a habitual, para chegarem à escola, pois a menina não se cansava de a apressar e de lhe mostrar o seu desejo de chegar quanto antes.
Como era de prever, chegaram muito antes da hora marcada para que todas as crianças e seus respectivos professores se reunissem, para depois embarcarem no autocarro que as conduziria em direcção ao aeroporto, onde deveriam apanhar um avião que iria riscar os céus em direcção a Lisboa.
A alegria, as correrias e o entusiasmo eram gerais. Até o Sol veio encher de luz e de cor o dia escolhido para a feliz missão especial, rumo ao Parque das Nações, mais especificamente em direcção ao oceanário e às suas surpresas e maravilhas!
Após a entrada de todos no autocarro, chamou-se pelo nome de cada uma das crianças inscritas na lista de participantes, agradeceu-se em voz alta a quem de direito (o Presidente da Câmara Municipal e aos seus Vereadores) e a todas as outras pessoas e entidades que voluntariamente colaboraram na realização dessa iniciativa. Depois de mais algumas recomendações importantes, lá se deu início à agradável e interessante viagem. O percurso fez-se bem e sem quaisquer sobressaltos.
Ao chegar ao aeroporto A satisfação era geral e todas as crianças se sentiam muito entusiasmadas, por irem andar de avião pela primeira vez. Entre risos e brincadeiras, todos foram ordeiramente ocupando os seus lugares e, uns com ajuda, outros sem ela, lá trataram de colocar os cintos de segurança como mandam as boas regras de vôo e, quando mal deram por isso, já tinham percorrido os muitos quilómetros que os separavam da cidade de Olíssipo que os aguardava de “braços abertos”!
Depois de uma refeição ligeira, “só para enganar a fome”, la foram os vários grupos de meninos e meninas, acompanhados pelos respectivos professores e auxiliares, tal como lhes tinha sido pedido no início da caminhada, até à porta do Oceanário.
Após terem transposto à entrada principal, não haviam olhos que chegassem para apreciar e abarcar tanta beleza junta. Eles eram pinguins, tubarões brancos, peixes trombeteiros, polvos, raias, moreias e tantos, tantos outros animais aquáticos, selvagens, voadores e terrestres que era preciso quase um caderno inteiro, para apontarem com exactidão o monte de coisas bonitas que nesse dia, tiveram oportunidade de ver e de apreciar!
Para que o cansaço não atacasse antes do previsto, lá se iam fazendo umas pausas aqui, ali e mais além para que todas as crianças pudessem apreciar com agrado e atenção, as lindas maravilhas que a Mãe Natureza tem para oferecer a todos aqueles que estiverem dispostos a parar e a olhá-la com um pouco mais de cuidado, de amor e de carinho! E, foi nesse clima de aventura e descoberta que, lentamente todos foram percorrendo aquele espaço tão acolhedor e apreciando de vários ângulos as condições de vida marinha e não só, existentes nos diferentes oceanos que banham os quatro cantos do mundo, desta encantadora Bola Azul em que vivemos.
Mas, o entusiasmo não terminou com a saída do Oceanário, pois cá fora, aguardavam-nas o bonito rio Tejo que reflectia delicada e deliciosamente os lindos raios do Astro Rei, enquanto corria serenamente em direcção ao mar. Não muito longe dele, haviam vários locais cheios de sombras frondosas, com diversas mesas e banquinhos de pedra que convidavam a um bocadinho de repouso e a um lanchezinho ao ar livre.
Enquanto todos matavam a fome em alegres piqueniques, iam conversando com os seus respectivos professores sobre as coisas que mais os tinham impressionado e despertado o seu interesse. Conbinaram então, que quando chegassem novamente à escola, iriam fazer uma redacção sobre tudo o que haviam visto no Oceanário, a qual seria depois lida numa festa geral de fim de ano lectivo, com o objectivo de sensibilizar a todos os presentes para a necessidade de preservar a vida de todas as espécies do nosso maravilhoso planeta.
Após terminado o lanche, enquanto uns passeavam e outros brincavam, alguém descobriu um teleférico que percorria todo o espaço em volta daquele local e que acabou por fazer as delícias de miúdos e graúdos.
Como sempre acontece quando estamos muito felizes, o tempo nesse dia voou. Por isso, foi com grande surpresa que quando os professores e auxiliares começaram a reunir as crianças para o regresso, a Joaninha e o seu grupo de amiguinhas tiveram de acabar com o seu jogo de imitação de animais marinhos de que tanto estavam a gostar.
Depois de estarem novamente todos juntos, entraram noutro autocarro que os levou novamente em direcção ao aeroporto, onde embarcaram noutra aeronavve para fazerem a viagem de regresso. Já  a bordo do avião, as crianças foram brindadas com umas saborosas pipocas e umas apetitosas miniaturas de bolos que tão deliciosamente lhes souberam.
Quando ao fim desse dia, voltaram novamente ao portão da escola, os pais e amigos lá estavam à sua espera, ansiosos para escutarem o monte de novidades que eles traziam para contar-lhes. Foi entre beijos e abraços de satisfação, que a Joaninha e os restantes colegas foram recebidos por aqueles que tão ansiosamente os aguardavam.
Depois das despedidas da praxe, lá foram cada qual para as suas casas, com muitas coisas novas para conversarem e com a certeza de que aquele dia inesquecível, iria ficar por muitos e longos anos gravado numa das folhas mais bonitas do álbum de recordações da vida de cada um deles!



Sónia Queirós

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Míriam, a Enviada do Céu



O dia tinha amanhecido enevoado. Cláudia caminhava em companhia de Filipa, a sua melhor amiga em direcção à escola, enquanto conversavam animadamente sobre uma das suas séries preferidas de televisão. De quando em quando, Cláudia alongava a vista pelos céus da cidade onde morava, pois gostava imenso de ver as gaivotas a planarem imponentes bem lá no alto dos ares.
Claro que os sons emitidos por elas não a deixavam indiferente e muitas vezes, ficava a pensar para si mesma: “ai, como eu gostava de poder ser amiga de uma gaivota..., oh, que bom havia de ser se pudesse conversar com ela sobre os segredos dos mares e dos ares, partilharmos coisas que seriam só nossas e me deixasse fazer-lhe muitas festinhas, pelas suas lindas penas longas e delicadas”! Noutras alturas, punha-se a tentar imaginar quais os sítios por onde elas voariam para além daquela cidade e como seriam as outras paragens, gentes e culturas por si conhecidas. Será que falavam com muitos marinheiros? E se isso acontecesse, sobre que género de histórias e aventuras conversariam? E os pescadores, eram amigos delas e de vez em quando atiravam-lhes um ou dois peixinhos com generosidade, ou pelo contrário, assim que as viam logo tratavam cheios de avareza, de as enchotar dali?
Ora numa das praças por onde as pequenas costumavam passar quase todos os dias, haviam alguns bancos de jardim de madeira e uma série de árvores muito altas que na Primavera, se cobriam de lindas flores coloridas de mil tons, formas e feitios que espalhavam em seu redor fragâncias maravilhosas. A delimitar certas partes dessa praça, existiam também, uns belos canteiros com pequenas florinhas de espécies variadas, o que tornava aquele lugar um sítio ainda mais calmo e agradável. Mas, aquilo de que ambas realmente mais gostavam, era de verem com bastante frequência, avós que por lá passeavam com os seus netinhos e netinhas pela mão e muitas pombinhas que comiam milho que tanto miúdos como graúdos, lhes atiravam às mãos-cheias para o chão. Outras vezes, eram casais de namorados que enquanto conversavam calmamente sentados nos bancos, chamavam as pombinhas e lhes estendiam a mão em concha, a abarrotar de grãos-de-milho acabadinhos de sair do saco.
Certa tarde porém, quando regressava da escola, Cláudia reparou numa coisa que ao princípio lhe pareceu um pouco estranha. Por isso, parou por uns minutos, a olhar cheia de curiosidade, para uma gaivota que, juntamente com as pombas, debicava tranquilamente grãos-de-milho e bocadinhos de pão espalhados pelo chão.
Durante algum tempo deixou-se ficar por ali, a observar muito interessada a maneira como a gaivota se comportava. Na verdade, ela sentia uma profunda admiração por elas e ao olhar para aquela imagem tão bonita, logo lhe veio ao pensamento a ideia de como adoraria poder um dia, tornar-se amiga de uma delas.
Como também gostava imenso de deitar milho às pombinhas, tirou a mochila das costas e pôs-se a olhar para o seu interior. Em poucos segundos viu o que queria. Tirou prontamente um pequeno saquinho de tecido florido onde costumava levar o lanche para a escola e reparou que no fundo dele, ainda haviam num pequeno saco de plástico transparente que ali guardava, alguns grãos-de-milho, embora já não fossem lá muitos.
Depois, resolveu sentar-se um bocadinho num dos bancos ali próximos e a seguir, tentou arranjar uma maneira de atrair como podia a atenção da gaivota. Ao princípio, a bonita ave parecia nem reparar nela e na maneira insistente como a chamava, mas aos poucos, ergueu a cabeça e olhou em sua direcção. Alguns segundos depois, muito de mansinho, pata-ante-pata, assim como quem está a ganhar confiança, lá se foi aproximando devagarinho da mão que Cláudia lhe estendia , repleta de doirados grãozinhos.
Quando a ave chegou muito pertinho dela, por instantes a menina susteve um pouco a respiração e com o coração a bater-lhe com força dentro do peito, pensou: “ena, que grande bico que ela tem. E se me dá uma bicada ao pegar nos grãos-de-milho?” Mas ganhou coragem, manteve-se firme e não retirou rapidamente a mão, nem atirou com os grãos-de-milho para longe para se afastar, pois isso seria desperdiçar uma oportunidade única de realizar um dos seus grandes desejos...
A surpresa de Cláudia não poderia ter sido maior. A gaivota era de uma ternura encantadora e aproximando o bico da sua mão, pegava devagarinho em três ou quatro grãozinhos de cada vez, mastigava-os, engolia-os e a seguir repetia a operação. A menina olhava-a encantada e aos poucos foi-se sentindo cada vez mais confiante. Por isso, estendeu devagarinho a outra mão e passou-a muito ao de leve pelas penas branco-acinzentadas do seu dorso.
Quando a mão da menina ficou vazia, a gaivota olhou-a ternamente nos olhos assim como se quisesse dizer-lhe obrigada, aceitou uma última festinha e depois caminhou para um sítio um pouco mais afastado. A seguir, estendeu as suas asas portentosas, agitou-as com a força necessária e ergueu-se rapidamente no céu.
Desejosa de saber o que ia acontecer, Cláudia seguiu-a com o olhar e viu-a dirigir-se para o beiral de uma casa que ficava ali perto. Depois de lá se ter instalado confortavelmente, a ave olhou novamente para a menina e agitou suavemente as suas asas imponentes. Sem saber muito bem porquê, Cláudia levantou a mão direita e fez-lhe um aceno de despedida. Depois, com muita calma e o coração a transbordar-lhe de alegria, guardou novamente os sacos na mochila, fechou-a, levantou-se e retomou calmamente o caminho de casa.
Cláudia mal pôde esperar pela manhã seguinte, para contar a Filipa, a sua aventura da tarde anterior e assim que puseram os pés no passeio da praça, logo começaram as duas a olharem atentamente para o beiral de uma certa casa, em busca de uma gaivota conhecida. Mas, para grande tristeza de ambas, àquela hora da manhã, ela não andava por ali… Talvez não tivesse de levantar-se cedo como elas ou então, poderia ter ido até perto dos barcos de pesca, para ver se conseguia alguma coisa fresquinha para o pequeno-almoço daquele dia.
Contudo, nessa tarde ao regressarem da escola, as pequenas tiveram uma agradável surpresa. Tal como havia acontecido no dia anterior, a gaivota lá estava novamente, no meio de muitas pombinhas que arrulhavam calmamente, enquanto iam debicando aqui, ali e além, grãozinhos-de-milho e bocadinhos de pão espalhados pelo chão. Assim que se aproximaram daquele local, Cláudia reconheceu de imediato a gaivota que tinha alimentado antes. Por isso, procurou um banco ali pertinho, sentou-se com calma e depois abriu a mochila como tinha feito na primeira vez. Filipa seguiu-lhe o exemplo e abriu também a sua mochila, para ver se ainda lhe tinha sobrado alguma coisa do lanche.
Entretanto, a julgar pela maneira como logo aos primeiros chamamentos, a ave olhou na direcção das pequenas e principalmente para Cláudia, ela depressa percebeu que a sua nova protegida a tinha reconhecido também. Por essa razão, dessa vez, a ave não demorou muito a ir ao encontro dela!
A menina ficou tão contente, que num ápice, retirou do fundo da mochila uma surpresa que tinha trazido para ela. Assim, perante o olhar atento da gaivota e de Filipa, Cláudia pegou num pequeno embrulho feito com papel de chumbo e desdobrou-o. Depois, estendeu à sua nova amiga uma sanduíche de atum muito fresquinha, que ela a julgar pelo seu ar, comeu com imensa satisfação!
Na manhã seguinte quando passaram pela praça, mal olharam para o beiral da casa onde a gaivota tinha ido pousar da primeira vez ao despedir-se de Cláudia, logo a viram sem nenhuma dificuldade. Mas a ave também estava muito atenta, pois ao reparar que as pequenas olhavam para ela, apressou-se a emitir uns sonoros huá, huá, huá, que não passavam despercebidos a ninguém! Aliás, se fosse fácil compreender o pensamento de uma gaivota, quase poderia dizer-se que ela já estava no seu posto de vigia, muito atenta para ver quando as pequenas por ali passariam e que ao avistá-las, as saudou com um amistoso e expressivo bom-dia!
Mal elas se aproximaram dessa casa, repararam que a ave estendeu as suas asas e levantou voo. Pensando que se ia embora, as pequenas retomaram o caminho da escola, um tanto desiludidas! Mas, qual não foi o seu espanto quando alguns passos mais adiante, viram que a sua nova amiga as acompanhava sempre muito atenta, bem lá no alto dos céus!
Quando chegaram ao portão da escola, acenaram-lhe ambas de mãos bem erguidas no ar. A gaivota fez então um grande círculo no alto do céu e depois de emitir uns quantos huá, huá, huá de despedida, foi procurar um bom local para a sua aterrisagem. E, para grande alegria de ambas, perceberam que ela o tinha descoberto, numa das torres muito altas de uma igreja que ficava ali perto.
À saída das aulas, depois de terem percorrido uns quantos metros, as meninas passaram perto da igreja e ao olharem para uma certa torre, avistaram de imediato, a sua nova companheira das alturas. E, quando chegaram ao banquinho de jardim da praça, logo a gaivota se apressou a descer em voo planado lá do alto e a aterrar muito pertinho das duas meninas. A seguir, ecebeu de presente, duas suculentas e fresquinhas sanduíches de atum!
As semanas foram-se passando e a amizade foi crescendo entre as três amigas. Todos os dias, a gaivota as acompanhava sempre na ida e no regresso da escola. Mas, numa tarde em que ambas regressavam a casa muito satisfeitas, algo de imprevisto aconteceu!
Ao passarem numa rua menos movimentada, um grupo de seis rapazes mais velhos aproximou-se das pequenas, rodeou-as e depois exigiu-lhes que lhes entregassem os telemóveis, as carteiras e os relógios. Entre aflitas e desesperadas começaram ambas a gritar por socorro. Foi quando um dos rapazes tapou a boca de Cláudia e lhe deu um valente puxão de cabelos, enquanto lhe dizia:
- Cala-te sua grande estúpida, ou queres apanhar a sério no focinho?
Entretanto a sorte de Filipa também não era melhor, pois um dos outros do grupo com mau aspecto, apontou-lhe uma faca e enquanto lhe apertava o braço com força, recomendou-lhe que entregasse tudo sem dar um pio...
Banhada em lágrimas Cláudia entregou os seus pertences e Filipa fez o mesmo. Mas, quando o grupo já se preparava para se afastar dali, algo de surpreendente para eles sucedeu. De repente, surgiu vinda lá do alto dos céus, uma gaivota que soltando uns huá, huá, huá assustadores, mergulhou sobre eles em voo picado e que se atirou com bicadas impiedosas ao rapaz que tinha puxado os cabelos de Cláudia. A seguir, ainda ele não estava refeito do susto, nem das dores e já a imponente ave investia com igual fúria, no outro que tinha maltratado à Filipa.
Com a determinação de um general que quer preservar a vida dos seus homens, ergueu-se novamente no ar, ganhou altura e depois procedeu a um segundo ataque fulminante. Dessa vez, atingiu um terceiro que estava boquiaberto de pasmo com tudo aquilo e depois dirigiu-se veloz como uma flecha na direcção do quarto. Os outros dois não quiseram saber de mais nada.
Cláudia e Filipa perceberam logo o que estava a passar-se e sentiram-se muito felizes, por a sua amiga as ter defendido naquele momento difícil.
Quanto aos jovens malfeitores, ffugiram dali o mais depressa que as pernas lhes permitiram, pois com os braços e as costas em sangue, completamente apavorados, atiraram com tudo para o chão e nem quiseram saber de mais nada! Mas isso num primeiro momento não lhes serviu de muito, porque depois daquela gaivota vieram outras e os gritos deles ainda se ouviam claramente, apesar de já estarem bem afastados daquele local...

Passado um bocadinho, a inteligente ave foi ter com as duas meninas ao ponto de encontro habitual. Mas dessa vez, depois de comer as suas sanduíches, teve direito a um tratamento especial.
Cláudia olhou-a cheia de gratidão e pegou-lhe ao colo com muito carinho. Filipa por sua vez, também a cobria de atenções e mimos.
Decidiram então ambas de comum acordo, que deviam dar um nome à sua corajosa amiga e protectora. A escolha não era nada fácil, mas depois de umas quantas tentativas chegaram a um acordo.
Como a gaivota esperava sempre por elas na torre da igreja que ficava perto lá da escola, resolveram chamar-lhe Miriam, já que esse era o nome de Nossa Senhora, a protectora das crianças como lhes tinha dito a sua catequista.
Fitando-a então com imensa ternura, enquanto lhe acariciava as penas aveludadas, Cláudia disse à valente gaivota:
- De hoje em diante, nossa querida amiga, vais chamar-te Míriam. Sim, tu serás sempre para nós, a nossa doce e corajosa Miriam, a enviada do céu!


Sónia Queirós

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Maravilhosa Exposição de Amor!

A noite já havia descido sobre a casa daquela família. Na cozinha, num ambiente muito acolhedor, faziam-se os últimos preparativos para o jantar. Na sala-de-jantar, ia-se pondo a mesa, pois esse era o local onde a família se reunia habitualmente, para tomar as refeições principais.
De repente, a filha mais nova do casal entrou em casa, um pouco mais cedo do que era costume, o que gerou a surpresa e o agrado geral. Logo depois de ter cumprimentado a todos com um beijinho de boa-noite, a jovem dirigiu-se à mãe e disse-lhe num tom afectuoso:
- Mãe, queria pedir-te um favor.
Ainda a resposta afirmativa da mãe mal se tinha feito ouvir e, já a jovem descia de novo os degraus da casa até à porta da entrada, para os voltar a subir um ou dois minutos depois. Nos lábios trazia um sorriso cheio de alegria e no colo, uma encantadora cadelinha recém-nascida. A amável visita, vinha confortavelmente instalada dentro de um cestinho de palha acolchoado e olhava muito atenta para tudo o que a rodeava. Assim que chegou junto da mãe, a jovem passou-lho para as mãos e disse-lhe:
- “Chama-se Kiamy, e queria pedir-te se não te importas de tomar conta dela durante os próximos dois meses, pode ser?...”
Enquanto a mãe afagava ternamente o pêlo macio da recém-chegada hóspede, outra das filhas do casal entrou na cozinha para ir buscar os talheres e ficou igualmente cativada pela beleza e encanto da pequena Kiamy. Com todo o cuidado que requer qualquer recém-nascido (seja ele humano ou animal), começou de imediato a fazer-lhe carinhosas festinhas, deu-lhe muitos beijinhos na cabeça, no focinho e nas orelhas aveludadas, para mostrar-lhe o quanto ela era bem-vinda ao aconchego daquele lar. Em troca, a amável Kiamy ia retribuindo gentilmente todos os carinhos de que era alvo, ora lambendo o rosto e as mãos das que lhe faziam meiguices, ora agitando a sua pequena cauda como sinal de que também estava muito feliz com aquela recepção de boas-vindas .


Depois foi a vez do chefe da casa, que ao vê-la enfeitada com um lindo lacinho vermelho que trazia no pescoço e que a tornava ainda mais graciosa, lhe fez também muitas festinhas. Pouco tempo depois, a jovem que terminara de pôr a mesa para o jantar, pediu ao pai para lhe deixar pegar mais um bocadinho na cadelinha, ao que ele acedeu de boa vontade, mas recomendando-lhe que tivesse muito cuidado para não a deixar cair.
Durante o jantar daquela noite, a ilustre visitante andou de colo em colo e todos falavam baixo, para não incomodar o sono da “mais recente elemento do lar”. Na televisão, os apresentadores do Telejornal, também concordaram que deviam reduzir um pouco mais o volume, para que tudo decorresse com a maior tranquilidade e paz possíveis!
Contudo, nem tudo foram rosas para a pequena cadelinha! É que o Dinho, um cão-de-água muito meigo e espertalhão, que era já um dos habitantes antigos da casa, devido a um certo conjunto de razões “muito pessoais”, ao princípio não pareceu achar assim lá grande piada àquela encantadora bolinha de pêlo! Depois de a farejar minuciosamente, aos poucos lá a foi começando a aceitar como nova companheira, mas isso nem sempre era coisa fácil e muito menos pacífica.
Nos primeiros dias depois da sua chegada, a pequena Kiamy era uma cadelinha triste e tímida, gemia com frequência durante a noite e tinha um sono muito agitado, o que não era para admirar. É que, segundo se veio a saber, alguém com pouco coração, a havia abandonado a ela e aos seus irmãozinhos, sem dó nem piedade, ao frio da noite, sem água nem comida e nada preocupado com o futuro daqueles pobres cãezinhos indefesos.
Mas a estrela da sorte da pequena Kiamy estava com ela! Pouco tempo depois de ter vivido esse triste episódio, numa tarde soalheira de Outono, um casal de jovens namorados que haviam decidido ir visitar uma exposição de animais para adopção, descobriram-na junto dos irmãozinhos, deitada num pequeno cobertor. A menina perguntou à senhora que estava a cuidar deles, se poderia pegar-lhe ao colo e, de imediato “apaixonou-se” pelos seus encantos e fragilidades.
Foi certamente, amor à primeira vista! Depois de devidamente vacinada, com o chip já colocado e transportando um pacote de comida na mão, levou-a ternamente consigo para casa e, desse momento em diante, tudo mudou de forma definitiva para a “nova membro” da família Queirós.
À medida que os dias foram passando, rodeada de atenções e cuidados, a linda pastora belga de olhos azuis e pelagem bege-amarelada, foi-se tornando uma cadela alegre e brincalhona, muito meiga e graciosa, dotada de uma vivacidade e energia contagiantes. Para ela, todas as horas eram boas para brincar, caminhar ao ar livre e correr atrás ora de bolas, paus, garrafas de água vazias, ora de coelhos, galos, passarinhos e de outros animais que raramente conseguia apanhar. Lentamente e quase sem darem por isso, algum tempo depois da sua chegada, ela tinha já conquistado inteiramente os olhares e corações dos habitantes daquela residência, tanto dos que caminhavam sobre dois pés, como daquele que se deslocava em cima de quatro patas.


Claro que por vezes, surgiam situações um tanto espinhosas! Esse era por exemplo o caso, das alturas em que Kiamy roía as meias, as roupas interiores das pessoas da casa, os pés das cadeiras e das mesas de madeira, os cobertores e edredons das camas, isso para nem falar dos odoríferos chichis com os quais humedecia por vezes, a carpete da sala-de-jantar! No entanto, mal era chamada à atenção, logo Kiamy começava a abanar viva e graciosamente a sua longa cauda felpuda, a lançar uns olhares cheios de expressivas desculpas e a preparar-se para oferecer umas delicadas lambidelas ternurentas a quem a advertia, gestos aos quais ninguém conseguia resistir e muito menos, ficar indiferente!
Noutras ocasiões, era o elemento canino, que tinha de suportar a sua quota parte de apuros. Isso acontecia, quando a sua nova companheira se decidia a persegui-lo pelas divisões da casa, para lhe morder a cauda ou tentar mamar nas mamitas dele, que verdade seja dita, estavam mais secas do que certas palhas num palheiro! Essas eram com certeza, algumas das razões pelas quais de vez em quando, lá se ouvia o ilustre veterano a rosnar-lhe ou a ladrar-lhe com força, o que fazia com que durante uns minutos ela se agachasse e ficasse realmente em sentido. Mas passado algum tempo, depois de recuperar do susto inicial, a pequena Kiamy retomava as suas investidas, pois parecia divertir-se imenso com o novo amiguinho e as brincadeiras que faziam juntos.
Apesar de aos poucos se terem tornado bons companheiros, Dinho cedo percebeu (que não tinha outro remédio), senão “aturar as tropelias daquela novata irrequieta” como podia, enquanto não se lhe esgotava a pouca paciência de que dispunha. No entanto, sempre que algo lhe desagradava seriamente, ele logo tratava de repor a ordem.
Quando numa manhã um tanto fresca de Novembro mas agradavelmente ensolarada, a pequena Kiamy foi pela primeira vez, visitar quase pela “própria pata”, o senhor Doutor para ver como andava de saúde, uma coisa se tornou muito clara nos corações daqueles que lá a acompanharam: se era verdade que pouco ou quase nada sabiam acerca dos dias tristes do seu passado, era igualmente certo que tudo fariam em prol do seu bem-estar no presente e no futuro. Aliás, só queriam proporcionar-lhe as mesmas condições de segurança, conforto e bem-estar que tinham dado ao Dinho, para que ela viesse também a ser uma cadela alegre e feliz, para que crescesse forte e saudável, como merecem todos os animais do mundo!!!


Sónia Queirós.