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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma “Vizinha Fora de Série”!






A manhã despontou ruidosa e barulhenta! Naquele dia depois de acordar, tomar o pequeno-almoço e preparar-se para sair com a sua cadela Jane para o passeio matinal, Clarinha reparou que alguma coisa estranha estava a acontecer perto da casa onde morava.
Ao contrário do ambiente calmo e tranquilo que habitualmente ali se sentia, enfeitado pelos doces e melodiosos gorjeios dos passarinhos, aquela manhã despontou estremunhada pelo ronco forte dos motores de máquinas retro-escavadoras, moto-serras que zumbiam como vespas furiosas e com o estampido de árvores que caíam desamparadamente no chão. Por todos os lados, haviam homens que falavam alto, assobiavam e faziam gestos uns para os outros para comunicarem entre si, enquanto manobravam de um sítio para o outro, pesadas máquinas e camiões.
A pequena mal conseguia acreditar naquilo que os seus olhos viam e os ouvidos ouviam, mas fosse lá como fosse, era inegável que naquele dia, a calma e o sossego habituais, haviam sido substituídos por uma tremenda confusão e uns barulhos ensurdecedores!
Como é normal, a menina levou Jane, a sua querida amiga de quatro patas para um lugar bem afastado daquele sítio, por onde costumavam dar início ao seu passeio matinal. Claro que naquela altura, era impensável deixar a sua companheira correr livremente pelos terrenos ali próximos, como tanto gostava de fazer, pois algo de muito mau poderia acontecer-lhe, se ela cometesse tal imprudência.
Alguns dias mais tarde, depois de o terreno ter ficado completamente desbravado, aterraplanado e despido de tudo, veio um novo grupo de homens, equipado com outras máquinas e camiões. Dessa vez trouxeram redes metálicas, grossas traves de madeira, pregos e parafusos. Das caixas de carga dos camiões descarregaram também, martelos pneumáticos, um compressor, pás, picaretas, areia e sacos de cimento.
Depois de terem depositado no solo todos os materiais, começaram a fazer vários buracos no chão, enterraram neles as traves de madeira e a seguir taparam-nos com cimento para que ficassem bem seguras. Na etapa seguinte, colocaram redes metálicas em volta dessas traves, vedando assim todo o terreno, construiram uma espécie de portão com rede e madeira, para que ninguém pudesse andar livremente por aquele espaço, como antes acontecia, fecharam-no e depois foram-se embora.
O silêncio e a harmonia voltaram novamente àquele local. Mas, verdade seja dita, Clarinha sentia muita falta dos pinheiros, eucaliptos e tílias que antes enfeitavam aquele lugar e o mesmo sucedia em relação ao alegre canto dos passarinhos, dos grilos e das cigarras que outrora ali moravam. Além disso, nenhum dos moradores daquela zona sabia muito bem, acerca de qual seria a finalidade de tudo aquilo, pois o novo dono daquele espaço parecia ser de poucas falas.
À medida que as semanas foram passando, ele começou a cultivar uma parte do seu terreno com produtos agrícolas. Noutro lado construiu uma espécie de galinheiros onde colocou galinhas e patos e depois trouxe para lá, dois cães para lhe guardarem a propriedade.
Ora numa manhã em que Clarinha ia a passear com a sua querida Jane junto daquele local, um dos cães mais corajosos aproveitou-se do facto de o portão estar aberto para vir logo ter com elas. Ao vê-lo aproximar-se, Clarinha nem hesitou, puxou de imediato Jane para junto de si e deu um berro ao intruso cheio de convicta determinação:
- Sai já daqui! Volta imediatamente para o teu terreno ou então vais apanhar…
Logo que o dono do animal se apercebeu do que estava a passar-se, assobiou-lhe de longe para o chamar para junto dele enquanto se aproximava da menina o mais rapidamente que conseguia. A seguir, enquanto fazia umas festas ao seu amigo de quatro patas, para a tranquilizar disse-lhe:
- Tenha calma menina, a Linda é uma cadela muito mansa, que só quer brincar e não faz mal a ninguém!
- Está bem, mas o senhor tem que prestar mais atenção aos seus animais para que eles não venham assim de qualquer maneira para fora da sua propriedade.
- Fique descansada, que eu vou estar mais atento. E afagando ternamente o pêlo da sua companheira, lá a levou consigo para dentro da propriedade, fechando depois o portão atrás deles.
Quando ao almoço Clarinha contou aos pais a peripécia que tinham vivido naquela manhã, o pai disse-lhe:
- É verdade Clarinha, eu e a mãe também já lhe fizemos umas festinhas umas vezes, pois à noite quando vamos tomar café ela vem sempre para junto da rede e mete o focinho por uma das aberturas para chamar por nós. E quando nos aproximamos depois abana vivamente a cauda e lambe-nos ternamente as mãos enquanto lhe afagamos o focinho, as orelhas e o dorso.
Depois de ter escutado tudo aquilo, também a pequena ficou com curiosidade de conhecer melhor a amável Linda, pois também ela gostava imenso de animais! E sem perder um minuto que fosse, decidiu que no dia seguinte, quando ela e Jane fossem dar o seu passeio matinal, parariam ambas pertinho da rede e a chamariam para ver o que aconteceria.
Quando na manhã seguinte Clarinha parou com Jane junto da rede e chamou por Linda, poucos segundos depois, ela ali estava com um ar de estupefacção, mas abanando a cauda e cheirando as mãos da menina com todo o interesse. Depois veio a primeira lambidela, a segunda e Clarinha ganhou confiança e começou também a fazer-lhe festas cheia de entusiasmo, gestos que eram também acompanhados por vivas oscilações de cauda da parte de Jane! Que bom que a Linda era tão afável como o pai lhe tinha dito!
Com o correr das semanas muitas outras coisas maravilhosas aconteceram, pois certa manhã quando Clarinha andava a passear com Jane num pinhal próximo da propriedade que Linda deveria guardar, ela veio ter com elas e ofereceu tanto a Jane como à sua dona, uma série de carinhos, latidos e de oscilações de cauda! A alegria do trio era imensa!
Num mar de satisfação, Linda ora colocava as patas dianteiras nos ombros de Clarinha, ora se deitava de barriga para cima e patas para o ar, enquanto esperava que a menina lhe fizesse festinhas no peito e na barriga. A seguir, as duas novas amigas de quatro patas correram alegre e velozmente pela erva fresquinha, rebolaram-se nela até se cansarem e depois vieram sentar-se ambas junto da pequena que as afagava ternamente, ora a uma, ora à outra.
Como era habitual, ao almoço desse dia Clarinha contou aos pais como tinha ficado alegre com o facto de Linda ter ido ao encontro dela e de Jane. O pai disse-lhe então:
- Ah, não me admiro nada que ela tenha ido ter convosco, porque quando à noite vou passear a Jane, às vezes ela também vem ao nosso encontro.
- Ai sim, Pai? E como é que ela faz isso se o portão da propriedade está fechado?
- Ora bem, é muito fácil. Noutro dia estive a ver como é que ela fazia para sair da propriedade e reparei que conseguia fugir por um buraco que havia na rede, perto do chão na parte de trás do terreno. Para voltar a entrar, trepava para cima dum muro baixinho e depois saltava lá para dentro, percebes filhota?
- Oh sim pai, muito bem respondeu Clarinha com um ar de admiração no rosto.
- Ainda ontem à noite ela foi ter comigo e com a Jane, fez-nos muitas festas e depois andaram as duas a brincar pondo-se uma às cavalitas da outra, levantando-se nas patas de trás e abraçando-se com as da frente, enfim, pelo que vejo, elas gostam muito uma da outra!
- Ah sim, isso é o que eu também acho...
Alguns dias depois, numa noite quente de Verão, os pais de Clarinha disseram-lhe se ela queria ir com eles ao café e comer um gelado junto deles. A resposta da pequena nem se fez esperar:
- Claro que quero, disse a menina com os olhos a brilhar de felicidade!
Após terem saído de casa e caminhado alguns metros passaram mesmo em frente ao terreno onde a Linda morava. Ela mal os viu de longe logo ladrou para os chamar, apelo ao qual responderam prontamente os três. Parados junto da rede metálica, faziam-lhe muitas festas, diziam-lhe palavras afectuosas enquanto ela correspondia com gentis e delicadas lambidelas.
Poucos minutos depois despediram-se e afastaram-se dali, o que muito desagradou à amável Linda que ficou a ganir e a ladrar com força, para ver se algum deles mudava de ideias e voltava para trás. Mas vendo que os seus apelos não eram atendidos e que o grupo se ia afastando lentamente, então Linda resolveu tomar uma atitude...
Sem perder um minuto que fosse, correu apressadamente até ao fundo do terreno, encolheu-se o melhor que pôde para sair “pelas traseiras” e em poucos segundos, já percorria a distância que a separava dos novos amigos veloz como uma flecha!
Como era uma excelente corredora, rapidamente os alcançou e uma vez junto deles, afastou-se um pouco para diante e depois ladrou uma ou duas vezes e atirou-se cheia de alegria de encontro ao peito do pai de Clarinha. Entre risos e festinhas ele agarrou-a logo para que ela não caísse no chão!
A família estava surpreendida com a maneira alegre e confiante como Linda saltava feliz, de encontro ao peito de cada um deles! Em meia dúzia de passos, todos riam com agrado dos saltos e latidos da encantadora companheira!
Uma vez por outra, Clarinha agarrava-a e segurando-a com força contra o peito, caminhava uns quantos passos em frente, enquanto a gentil visitante se deixava transportar, oscilando docemente as patas traseiras e a cauda de um lado para o outro. Depois pousava-a no chão e ela caminhava naturalmente junto deles, tal como se eles fossem os seus donos.
Foi num desses momentos bonitos, que a menina disse ao pai cheia de satisfação:
- Sabes pai, acho que o dono da Linda é uma pessoa pouco simpática, mas ela ao contrário dele é uma cadela muito querida, não te parece?
- Sim senhora, Clarinha, tens toda a razão! Eu também acho que a Linda é mesmo uma “vizinha fora de série”!


Sónia Queirós.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Míriam, a Enviada do Céu



O dia tinha amanhecido enevoado. Cláudia caminhava em companhia de Filipa, a sua melhor amiga em direcção à escola, enquanto conversavam animadamente sobre uma das suas séries preferidas de televisão. De quando em quando, Cláudia alongava a vista pelos céus da cidade onde morava, pois gostava imenso de ver as gaivotas a planarem imponentes bem lá no alto dos ares.
Claro que os sons emitidos por elas não a deixavam indiferente e muitas vezes, ficava a pensar para si mesma: “ai, como eu gostava de poder ser amiga de uma gaivota..., oh, que bom havia de ser se pudesse conversar com ela sobre os segredos dos mares e dos ares, partilharmos coisas que seriam só nossas e me deixasse fazer-lhe muitas festinhas, pelas suas lindas penas longas e delicadas”! Noutras alturas, punha-se a tentar imaginar quais os sítios por onde elas voariam para além daquela cidade e como seriam as outras paragens, gentes e culturas por si conhecidas. Será que falavam com muitos marinheiros? E se isso acontecesse, sobre que género de histórias e aventuras conversariam? E os pescadores, eram amigos delas e de vez em quando atiravam-lhes um ou dois peixinhos com generosidade, ou pelo contrário, assim que as viam logo tratavam cheios de avareza, de as enchotar dali?
Ora numa das praças por onde as pequenas costumavam passar quase todos os dias, haviam alguns bancos de jardim de madeira e uma série de árvores muito altas que na Primavera, se cobriam de lindas flores coloridas de mil tons, formas e feitios que espalhavam em seu redor fragâncias maravilhosas. A delimitar certas partes dessa praça, existiam também, uns belos canteiros com pequenas florinhas de espécies variadas, o que tornava aquele lugar um sítio ainda mais calmo e agradável. Mas, aquilo de que ambas realmente mais gostavam, era de verem com bastante frequência, avós que por lá passeavam com os seus netinhos e netinhas pela mão e muitas pombinhas que comiam milho que tanto miúdos como graúdos, lhes atiravam às mãos-cheias para o chão. Outras vezes, eram casais de namorados que enquanto conversavam calmamente sentados nos bancos, chamavam as pombinhas e lhes estendiam a mão em concha, a abarrotar de grãos-de-milho acabadinhos de sair do saco.
Certa tarde porém, quando regressava da escola, Cláudia reparou numa coisa que ao princípio lhe pareceu um pouco estranha. Por isso, parou por uns minutos, a olhar cheia de curiosidade, para uma gaivota que, juntamente com as pombas, debicava tranquilamente grãos-de-milho e bocadinhos de pão espalhados pelo chão.
Durante algum tempo deixou-se ficar por ali, a observar muito interessada a maneira como a gaivota se comportava. Na verdade, ela sentia uma profunda admiração por elas e ao olhar para aquela imagem tão bonita, logo lhe veio ao pensamento a ideia de como adoraria poder um dia, tornar-se amiga de uma delas.
Como também gostava imenso de deitar milho às pombinhas, tirou a mochila das costas e pôs-se a olhar para o seu interior. Em poucos segundos viu o que queria. Tirou prontamente um pequeno saquinho de tecido florido onde costumava levar o lanche para a escola e reparou que no fundo dele, ainda haviam num pequeno saco de plástico transparente que ali guardava, alguns grãos-de-milho, embora já não fossem lá muitos.
Depois, resolveu sentar-se um bocadinho num dos bancos ali próximos e a seguir, tentou arranjar uma maneira de atrair como podia a atenção da gaivota. Ao princípio, a bonita ave parecia nem reparar nela e na maneira insistente como a chamava, mas aos poucos, ergueu a cabeça e olhou em sua direcção. Alguns segundos depois, muito de mansinho, pata-ante-pata, assim como quem está a ganhar confiança, lá se foi aproximando devagarinho da mão que Cláudia lhe estendia , repleta de doirados grãozinhos.
Quando a ave chegou muito pertinho dela, por instantes a menina susteve um pouco a respiração e com o coração a bater-lhe com força dentro do peito, pensou: “ena, que grande bico que ela tem. E se me dá uma bicada ao pegar nos grãos-de-milho?” Mas ganhou coragem, manteve-se firme e não retirou rapidamente a mão, nem atirou com os grãos-de-milho para longe para se afastar, pois isso seria desperdiçar uma oportunidade única de realizar um dos seus grandes desejos...
A surpresa de Cláudia não poderia ter sido maior. A gaivota era de uma ternura encantadora e aproximando o bico da sua mão, pegava devagarinho em três ou quatro grãozinhos de cada vez, mastigava-os, engolia-os e a seguir repetia a operação. A menina olhava-a encantada e aos poucos foi-se sentindo cada vez mais confiante. Por isso, estendeu devagarinho a outra mão e passou-a muito ao de leve pelas penas branco-acinzentadas do seu dorso.
Quando a mão da menina ficou vazia, a gaivota olhou-a ternamente nos olhos assim como se quisesse dizer-lhe obrigada, aceitou uma última festinha e depois caminhou para um sítio um pouco mais afastado. A seguir, estendeu as suas asas portentosas, agitou-as com a força necessária e ergueu-se rapidamente no céu.
Desejosa de saber o que ia acontecer, Cláudia seguiu-a com o olhar e viu-a dirigir-se para o beiral de uma casa que ficava ali perto. Depois de lá se ter instalado confortavelmente, a ave olhou novamente para a menina e agitou suavemente as suas asas imponentes. Sem saber muito bem porquê, Cláudia levantou a mão direita e fez-lhe um aceno de despedida. Depois, com muita calma e o coração a transbordar-lhe de alegria, guardou novamente os sacos na mochila, fechou-a, levantou-se e retomou calmamente o caminho de casa.
Cláudia mal pôde esperar pela manhã seguinte, para contar a Filipa, a sua aventura da tarde anterior e assim que puseram os pés no passeio da praça, logo começaram as duas a olharem atentamente para o beiral de uma certa casa, em busca de uma gaivota conhecida. Mas, para grande tristeza de ambas, àquela hora da manhã, ela não andava por ali… Talvez não tivesse de levantar-se cedo como elas ou então, poderia ter ido até perto dos barcos de pesca, para ver se conseguia alguma coisa fresquinha para o pequeno-almoço daquele dia.
Contudo, nessa tarde ao regressarem da escola, as pequenas tiveram uma agradável surpresa. Tal como havia acontecido no dia anterior, a gaivota lá estava novamente, no meio de muitas pombinhas que arrulhavam calmamente, enquanto iam debicando aqui, ali e além, grãozinhos-de-milho e bocadinhos de pão espalhados pelo chão. Assim que se aproximaram daquele local, Cláudia reconheceu de imediato a gaivota que tinha alimentado antes. Por isso, procurou um banco ali pertinho, sentou-se com calma e depois abriu a mochila como tinha feito na primeira vez. Filipa seguiu-lhe o exemplo e abriu também a sua mochila, para ver se ainda lhe tinha sobrado alguma coisa do lanche.
Entretanto, a julgar pela maneira como logo aos primeiros chamamentos, a ave olhou na direcção das pequenas e principalmente para Cláudia, ela depressa percebeu que a sua nova protegida a tinha reconhecido também. Por essa razão, dessa vez, a ave não demorou muito a ir ao encontro dela!
A menina ficou tão contente, que num ápice, retirou do fundo da mochila uma surpresa que tinha trazido para ela. Assim, perante o olhar atento da gaivota e de Filipa, Cláudia pegou num pequeno embrulho feito com papel de chumbo e desdobrou-o. Depois, estendeu à sua nova amiga uma sanduíche de atum muito fresquinha, que ela a julgar pelo seu ar, comeu com imensa satisfação!
Na manhã seguinte quando passaram pela praça, mal olharam para o beiral da casa onde a gaivota tinha ido pousar da primeira vez ao despedir-se de Cláudia, logo a viram sem nenhuma dificuldade. Mas a ave também estava muito atenta, pois ao reparar que as pequenas olhavam para ela, apressou-se a emitir uns sonoros huá, huá, huá, que não passavam despercebidos a ninguém! Aliás, se fosse fácil compreender o pensamento de uma gaivota, quase poderia dizer-se que ela já estava no seu posto de vigia, muito atenta para ver quando as pequenas por ali passariam e que ao avistá-las, as saudou com um amistoso e expressivo bom-dia!
Mal elas se aproximaram dessa casa, repararam que a ave estendeu as suas asas e levantou voo. Pensando que se ia embora, as pequenas retomaram o caminho da escola, um tanto desiludidas! Mas, qual não foi o seu espanto quando alguns passos mais adiante, viram que a sua nova amiga as acompanhava sempre muito atenta, bem lá no alto dos céus!
Quando chegaram ao portão da escola, acenaram-lhe ambas de mãos bem erguidas no ar. A gaivota fez então um grande círculo no alto do céu e depois de emitir uns quantos huá, huá, huá de despedida, foi procurar um bom local para a sua aterrisagem. E, para grande alegria de ambas, perceberam que ela o tinha descoberto, numa das torres muito altas de uma igreja que ficava ali perto.
À saída das aulas, depois de terem percorrido uns quantos metros, as meninas passaram perto da igreja e ao olharem para uma certa torre, avistaram de imediato, a sua nova companheira das alturas. E, quando chegaram ao banquinho de jardim da praça, logo a gaivota se apressou a descer em voo planado lá do alto e a aterrar muito pertinho das duas meninas. A seguir, ecebeu de presente, duas suculentas e fresquinhas sanduíches de atum!
As semanas foram-se passando e a amizade foi crescendo entre as três amigas. Todos os dias, a gaivota as acompanhava sempre na ida e no regresso da escola. Mas, numa tarde em que ambas regressavam a casa muito satisfeitas, algo de imprevisto aconteceu!
Ao passarem numa rua menos movimentada, um grupo de seis rapazes mais velhos aproximou-se das pequenas, rodeou-as e depois exigiu-lhes que lhes entregassem os telemóveis, as carteiras e os relógios. Entre aflitas e desesperadas começaram ambas a gritar por socorro. Foi quando um dos rapazes tapou a boca de Cláudia e lhe deu um valente puxão de cabelos, enquanto lhe dizia:
- Cala-te sua grande estúpida, ou queres apanhar a sério no focinho?
Entretanto a sorte de Filipa também não era melhor, pois um dos outros do grupo com mau aspecto, apontou-lhe uma faca e enquanto lhe apertava o braço com força, recomendou-lhe que entregasse tudo sem dar um pio...
Banhada em lágrimas Cláudia entregou os seus pertences e Filipa fez o mesmo. Mas, quando o grupo já se preparava para se afastar dali, algo de surpreendente para eles sucedeu. De repente, surgiu vinda lá do alto dos céus, uma gaivota que soltando uns huá, huá, huá assustadores, mergulhou sobre eles em voo picado e que se atirou com bicadas impiedosas ao rapaz que tinha puxado os cabelos de Cláudia. A seguir, ainda ele não estava refeito do susto, nem das dores e já a imponente ave investia com igual fúria, no outro que tinha maltratado à Filipa.
Com a determinação de um general que quer preservar a vida dos seus homens, ergueu-se novamente no ar, ganhou altura e depois procedeu a um segundo ataque fulminante. Dessa vez, atingiu um terceiro que estava boquiaberto de pasmo com tudo aquilo e depois dirigiu-se veloz como uma flecha na direcção do quarto. Os outros dois não quiseram saber de mais nada.
Cláudia e Filipa perceberam logo o que estava a passar-se e sentiram-se muito felizes, por a sua amiga as ter defendido naquele momento difícil.
Quanto aos jovens malfeitores, ffugiram dali o mais depressa que as pernas lhes permitiram, pois com os braços e as costas em sangue, completamente apavorados, atiraram com tudo para o chão e nem quiseram saber de mais nada! Mas isso num primeiro momento não lhes serviu de muito, porque depois daquela gaivota vieram outras e os gritos deles ainda se ouviam claramente, apesar de já estarem bem afastados daquele local...

Passado um bocadinho, a inteligente ave foi ter com as duas meninas ao ponto de encontro habitual. Mas dessa vez, depois de comer as suas sanduíches, teve direito a um tratamento especial.
Cláudia olhou-a cheia de gratidão e pegou-lhe ao colo com muito carinho. Filipa por sua vez, também a cobria de atenções e mimos.
Decidiram então ambas de comum acordo, que deviam dar um nome à sua corajosa amiga e protectora. A escolha não era nada fácil, mas depois de umas quantas tentativas chegaram a um acordo.
Como a gaivota esperava sempre por elas na torre da igreja que ficava perto lá da escola, resolveram chamar-lhe Miriam, já que esse era o nome de Nossa Senhora, a protectora das crianças como lhes tinha dito a sua catequista.
Fitando-a então com imensa ternura, enquanto lhe acariciava as penas aveludadas, Cláudia disse à valente gaivota:
- De hoje em diante, nossa querida amiga, vais chamar-te Míriam. Sim, tu serás sempre para nós, a nossa doce e corajosa Miriam, a enviada do céu!


Sónia Queirós

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vidas "Cãoprometidas"! 2ª parte

Continuação do post anterior.




O problema surgiu na altura em que arrumou os papéis dentro da mala, pois sem dar por isso, deixou esquecida em cima da secretária do gerente da imobiliária, a escritura que comprovava que ele era o dono da propriedade e da casa onde morava. Mas como era um homem pouco amigo de burocracias, logo que chegaram a casa, guardou a mala dos documentos no escritório e não pensou em mais nada do que tinham conversado com o Dr. Silvano naquela tarde.
Contudo alguns dias depois ao ler com atenção o conteúdo dos papeis que guardava na mala, verificou que lhe faltava a sua escritura. A aflição e ansiedade que de imediato se lhe instalaram na alma eram indizíveis!
- Meu Deus, mas aonde é que eu meti a porcaria da escritura? Oh, que sorte maldita a minha... Olha, o que me havia de acontecer! E agora, o que é que vou fazer para resolver esta chatice?
No meio do desespero e da aflição começou a atirar com tudo e acabou por perder de tal maneira a presença de espírito que entre rogos e pragas, foi sentar-se profundamente abatido no sofá.
Ao ouvir tal agitação dentro do escritório, Nancy veio logo a correr não se sabe de onde, na direcção do dono. Uma vez junto dele, colocou-lhe as patas dianteiras nos joelhos como sempre fazia em alturas de crise e olhou-o com a ternura habitual. Depois de o ter fitado durante alguns momentos enquanto abanava docemente a sua linda cauda, ele fez-lhe umas festinhas e disse-lhe:
- Não te preocupes Nancy, porque já estou a ficar mais calmo. Fica tranquila que está tudo bem... A seguir pensou melhor e corrigiu o que tinha dito antes.
- Sabes, quer dizer, dizia ele enquanto olhava para os papeis espalhados por todo o lado, não está nada bem, porque perdi um documento muito importante. Mas como não sei o que hei-de fazer para resolver o problema, continuou com a voz embargada pelas lágrimas…
Nancy não precisou de ouvir mais nada. Lambeu-lhe o rosto e as mãos ternamente e logo que o sentiu mais sossegado, tirou-lhe as patas dos joelhos e farejou longamente a mala e todos os papeis que por ali haviam completamente desordenados. No início “tomou conhecimento” dos documentos que se encontravam em cima do tampo da secretária e depois olhou atentamente para os que estavam no chão. A seguir, após ter reflectido durante uns momentos, olhou novamente para ele, foi até junto dele e agarrou-lhe a manga do polouver.
Ao princípio Toddy nem queria acreditar no comportamento de Nancy e, julgando que ela queria brincar para o distrair das suas aflições, exclamou com certa impaciência:
- Não Nancy, agora não vamos brincar! Já te disse que hoje estou muito preocupado, por isso se fazes favor, ficas aí quietinha… Dito isto, retirou-lhe a manga da boca, de maneira delicada mas firme.
Mas para grande surpresa dele, a inteligente pastora belga continuou a insistir decidida nos seus propósitos. Assim abocanhou-lhe novamente a manga e começou a puxá-lo para que se erguesse do sofá.
Após a ter fitado longamente durante algum tempo, começou a pensar de si para consigo: “será que ela quer que eu a acompanhe a algum lado?” “O que quererá ela dizer-me ao agir desta maneira tão estranha?...”
Habituado como estava, a confiar nas capacidades raras de compreensão de Nancy e também porque bem vistas as coisas, não tinha nada a perder em fazer o que ela queria, lá aceitou levantar-se e segui-la.
Em poucos minutos, Nancy percorreu o corredor central da casa e dirigiu-se para a porta da saída. Uma vez no exterior, caminhou sem hesitações para a porta da garagem e ladrou duas ou três vezes diante dela.
Absolutamente boquiaberto com o comportamento dela, Toddy perguntou-lhe:
- Queres que tire o carro, é isso?
A expressão viva no olhar de Nancy não deixava margem para dúvidas. Por isso, alguns momentos depois, já estavam ambos prestes a entrar para a rua que ficava em frente da casa onde moravam.
- E agora Nancy, vamos para a direita ou para a esquerda?
Nancy ladrou decidida duas vezes, o que queria dizer para a direita.
Sem mais hesitações Toddy ligou o pisca e quando chegou a sua vez, fez-se à estrada como a pastora belga recomendava. Por breves momentos, recordou-se das alturas em que treinavam os sinais de orientação e busca, num dos bosques próximos lá de casa.
Ao cabo de uns vinte minutos de latidos que indicavam ora para a direita, ora para a esquerda ou em frente, o perspicaz treinador começou a perceber a direcção que Nancy pretendia seguir. Alguns quilómetros mais adiante, perguntou-lhe numa voz um tanto surpreendida:
- Vamos à empresa imobiliária falar com o Dr. Silvano, é isso?
Após o ter fitado com sincera vivacidade, ladrou duas vezes e esticou-se na direcção do dono e lambeu-lhe o rosto como pôde, uma vez que o cinto de segurança que ele lhe tinha colocado logo que entraram no automóvel, lhe restringia bastante os movimentos.
- É isso Nancy, pode ser que tenhas razão! Se estiveres certa nas tuas intuições, dou-te o melhor presente da tua vida!
Quando parou o carro no parque da empresa, Toddy estava já absolutamente convencido de que era possível que o seu tão valioso documento lá tivesse ficado esquecido. Assim, ao cabo de alguns minutos de espera, estavam ambos novamente no escritório da firma, a conversar com o Dr. Silvano e Toddy informou-o dos motivos pelos quais ali se dirigiu. Mal ele acabou de falar, o Dr. Silvano disse-lhe com uma voz calma:
- Espere um minuto Sr. Toddy, porque realmente tenho uma ideia de ter visto essa escritura por aqui, mas creio que a minha secretária a encontrou e a guardou no cofre principal da firma. Só um bocadinho que eu venho já. Dito isto, ergueu-se prontamente e saiu do escritório.
Depois de uns dez minutos de espera que a Toddy mais pareceram dez horas, voltou com um ar sorridente que iluminava de forma indelével a sua fisionomia ainda jovem E exclamou:
- Ora pronto, é como eu lhe tinha dito. Aqui está a sua escritura senhor Toddy, disse ele assim que se sentou, estendendo-lhe logo o valiosíssimo documento. Peço-lhe imensa desculpa por não ter ligado logo para a sua casa a informá-lo de que a tinha deixado cá, mas só me apercebi disso no fim do trabalho quando fui colocar em ordem os papeis daquele dia. Além disso, como a Patrícia a guardou, não a voltei mais a ver e acabei por me esquecer também.
Toddy nem queria acreditar! Ali estava mesmo à frente dos seus olhos, a escritura que era tão importante para ele e da qual Nancy, (vá-se lá saber por que razões), realmente não se havia esquecido!
- Ah Dr. Silvano, não faz mal, fique tranquilo que eu compreendo perfeitamente como essas coisas são, disse delicadamente o treinador enquanto se preparava para erguer-se. Já de pé, estendeu-lhe a mão cordialmente. A seguir olhou para Nancy que ao vê-lo pôr-se de pé fez o mesmo e disse-lhe em tom afectuoso:
- Vamos Nancy, dá a pata ao Dr. Silvano, ordem a que ela obedeceu prontamente.
Com um sorriso nos lábios, o Dr. Silvano apertou-lhe delicadamente a pata dianteira direita, enquanto lhe fazia umas quantas carícias na cabeça e orelhas.
Quando saíram das instalações da empresa imobiliária, Toddy nem cabia em si de contente. De facto, essa foi mais uma das vezes em que as capacidades absolutamente raras da sua querida Nancy, lhe foram muitíssimo preciosas!
Radiante de satisfação, nessa tarde foram ambos passear no parque principal da cidade, onde Nancy pôde correr livremente por onde lhe apeteceu e no regresso a casa, comprou-lhe um sculento osso de búfalo que ela roeu com imenso agrado durante todo o caminho. Além disso, de vez em quando lembrava-se de quanto ela o tinha ajudado e como recompensa, fazia-lhe muitas festas e brincava com as suas orelhas macias.
Contudo, ao chegarem ao portão de casa algo de inesperado aconteceu. Toddy reparou num grande automóvel estacionado muito perto dele e, pensando que poderia ser um possível cliente, logo que o abriu fez sinal aos seus ocupantes para que o seguissem.
Sem que se soubesse muito bem porque razão, Nancy começou a ficar com o pêlo eriçado e parou logo de saborear o seu tão apetitoso petisco. Mal Toddy parou o carro junto da garagem, foi ao encontro deles o casal que há alguns meses atrás tinha querido adquirir Nancy.
Como era de esperar, a inteligente pastora reconheceu-os logo à entrada do portão e entre gemidos e rosnadelas, optou por se esconder por detrás das pernas do treinador.
Compreendendo perfeitamente os motivos de Nancy para se comportar daquela maneira, fez-lhe muitas festas para a tranquilizar. Depois, em tom de grande cordialidade, explicou ao casal que, por razões pessoais tinha mudado de ideias e que afinal já não iria vender aquela cadela.
Ao contrário do que ele desejava, eles não gostaram nada da ideia e ficaram tão furiosos que começaram a protestar. A certa altura, a discussão agravou-se de tal modo que o elemento masculino do casal tentou agredir Toddy com um soco na face. Nancy nem hesitou! De um salto, lançou-se-lhe com tal agilidade à mão erguida na direcção dele que o homem deu um terrível grito de dor.
- Calma Nancy, larga, larga, ordenou-lhe prontamente o treinador.
Nancy obedeceu, mas ficou a rosnar baixinho e não deixou de fitar o agressor um momento que fosse! Não confiava nada nele e bastava que fizesse um movimento em falso para que ela lhe mostrasse o quanto gostava de Toddy!
- Senhores, queiram por favor deixar a nossa casa imediatamente, pois como vêem não temos mais nada para conversar. Não me obriguem a ser desagradável convosco, disse-lhes Toddy com firmeza na voz.
Entre apavorados e desconcertados, retiraram-se ambos rapidamente, garantindo a Toddy que aquilo não iria passar impune.
Quando o portão eléctrico se fechou pela segunda vez atrás daquele casal, Toddy ajoelhou-se junto de Nancy e acariciando-lhe o focinho e as orelhas aveludadas, disse-lhe cheio de ternura:
- Muito bem Nancy! Estou muito orgulhoso de ti, continuou emquanto lhe passava carinhosamente a mão pelo dorso macio e felpudo. Acredita que não há dinheiro nenhum no mundo que possa comprar uma amizade tão valiosa como a tua! Por isso de hoje em diante, garanto-te que as nossas vidas ficarão para sempre “cãoprometidas”!
Enquanto Toddy ria do trocadilho inventado por ele naquele momento, a linda pastora belga que parecia compreender perfeitamente as suas palavras, cobria-o de delicadas e molhadas lambidelas, pois dentro do seu dedicado coração, também ela há já muitos meses lhe havia secretamente feito a mesma promessa!


Sónia Queirós

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vidas “Cãoprometidas”! 1ª^parte


Nancy era uma cadela imponente e graciosa! Realmente, nem era para estranhar, pois sendo filha de um belíssimo casal de pastores belgas, daqueles com pedigree e tudo, nasceu dotada de características e qualidades habitualmente raras na sua espécie!
Aliando a beleza do seu pêlo cor de fogo à vivacidade e ternura dos seus expressivos olhos azuis, juntando o bege claro das patas com a brancura da ponta da linda cauda farfalhuda de que dispunha, não havia dia nenhum em que não fosse cumulada de festinhas e atenções, tanto da parte dos donos, como por quaisquer estranhos que com ela se cruzassem na rua ou no jardim da casa onde morava!
Quando por volta dos três meses, o seu dono Toddy a começou a levar à rua de maneira regular, para se ir habituando calmamente a “conviver” com as coisas do mundo exterior, a graciosa pastora belga “dava nas vistas” por todos os lados por onde passava! Para não variar, os comentários eram sempre do género:
“Ai que cãozinho tão amoroso!” “Que engraçado a maneira como caminha sempre junto do dono e obedece às ordens dele, até parece que o entende!” “O ar dele é tão dócil, que quase parece ser de peluche”!
Realmente, a amável pastorinha tinha um ar tão pacífico que com frequência, várias pessoas perguntavam a Toddy se podiam fazer-lhe festas.
- com certeza, a Nancy é uma cadela muito dócil! Fique descansada porque ela é fã de carinhos e beijocas! E então se vierem acompanhadas de um dos seus biscoitos preferidos, aí é que ninguém a segura, dizia ele em alegre tom de brincadeira! É por isso que trago sempre um lenço no bolso, não vá às vezes fazer-me falta para secar as mãos ou o rosto!
Claro que, ao ouvirem tais palavras, os sorrisos dos que com ele conversavam não se faziam esperar.
Como Toddy já tinha bastante experiência no treino de exemplares daquela raça, percebeu logo desde os primeiros dias após o nascimento de Nancy, que ela sem dúvida alguma, possuía qualquer coisa de especial! É que, ao contrário dos dois irmãozinhos que haviam nascido na mesma ninhada que ela e que adoravam passar o tempo a brincar e a dormir, apesar de serem dóceis e inteligentes, não podia dizer-se de forma alguma que possuíssem capacidades de compreensão e aprendizagem semelhantes às dela.
Um dos factos que desde muito cedo o levou a pensar dessa maneira a respeito de Nancy, foi o desembaraço por ela demonstrado para resolver situações incómodas. Esse era por exemplo o caso, de quando por uma razão qualquer, ele se esquecia de encher-lhe o bebedouro de água limpa. Ora se por acaso Nancy sentia sede, não se atrapalhava muito a pensar nas falhas do dono! Pelo contrário, sem mais hesitações, pegava nele com os dentes e levava-o até junto dele. Depois, pousava-o gentilmente no chão e olhava para ele com ar de quem diz:
- Olha Toddy estou com muita sede, não te importas de me pôr aqui por gentileza, um bocado de água fresca para eu molhar a garganta?
Nas primeiras vezes em que isso aconteceu, ele ficou boquiaberto com a desenvoltura dela, mas depois com um sorriso de enorme satisfação nos lábios, tratou logo de lho lavar e de o encher. A seguir, pediu-lhe desculpas com toda a sinceridade pela falta cometida, enquanto lhe afagava cheio de ternura e admiração, as orelhas e o delicado focinho. Ela por seu turno, correspondia a esses gestos e palavras, com significativos olhares de meiguice e doces lambidelas no seu rosto!
À medida que a linda pastora belga ia crescendo, Toddy sentia-se cada vez mais cativado pelos seus encantos e capacidades. Para sua grande satisfação, sempre que se dirigiam para a zona de treinos, ela caminhava invariavelmente, cheia de energia e boa disposição. Logo que as aulas começavam, punha-se a olhar muito atenta para o rosto do treinador e a uma palavra sua, sentava-se, deitava-se, levantava-se, estendia amavelmente uma das patas em direcção à mão aberta dele ou rolava sobre si mesma.
Depois de ter aprendido as instruções básicas, Nancy evoluiu para níveis de maior exigência e dificuldade. Na primeira fase dos novos treinos, teve aulas de ataque e defesa e, depressa se tornou capaz de identificar quais as situações em que teria que ser rápida a neutralizar um agressor, para impedir quaisquer tipos de conflitos físicos. A seguir, Toddy ensinou-a a subir degraus de escadas que colocava à sua frente, a saltar por cima de obstáculos com diferentes graus de dificuldade e a passar pelo meio de um círculo de fogo, veloz como uma flecha!
Realmente, Nancy era uma cadela bastante invulgar, pois quase sempre percebia ao primeiro estalar de dedos, a um simples erguer do indicador de Toddy em certa direcção, qual a mensagem que queria transmitir-lhe e, esforçava-se invariavelmente por corresponder às suas ordens da melhor maneira que conseguia! Aliás, depois de terminar de fazer o que o treinador mandara, voltava novamente para junto dele e aguardava de focinho bem erguido e de cauda oscilante, umas festinhas de recompensa pelo bom desempenho da sua tarefa.
Ele por sua vez, não se fazia rogado e acariciava-lhe ternamente o dorso e as orelhas macias. A seguir, Nancy sentava-se ou deitava-se de patas estendidas e com a cabeça no meio delas num sítio qualquer de onde o pudesse ver sem dificuldades e ficava tranquilamente a vê-lo treinar também os pais e os irmãos. Com certa regularidade, iam pessoas à propriedade onde eles moravam para observarem os treinos e as capacidades dos cães e, quase sempre, acabavam por adquirir um dos que estivesse mais bem preparado. Apesar de Nancy se esforçar por se manter calma naqueles momentos, quase sempre era traída por um pensamento que lhe percorria o coração e que a fazia tremer da ponta do focinho à extremidade da cauda:
- E agora, será que é desta vez que vou ter que deixar Toddy? Espero que não gostem nada de mim e que me achem uma cadela muito feia e horrorosa!
Verdade seja dita, não era à toa que Nancy sentia tais medos, pois os seus dois irmãos já haviam partido há muito tempo e ela nada tinha podido fazer para impedir que isso sucedesse.
Ora certo dia, foi um senhor com sua esposa visitar a propriedade de Toddy e quando viram a imponente pastora belga, ficaram completamente fascinados por ela. Gostaram tanto dela, que lhe ofereceram imediatamente uma quantia muito superior ao preço que no início da conversa ele lhes havia pedido, para a poderem levar logo com eles.
Contudo, surgiu um imprevisto para o qual Toddy não estava nada preparado! Durante uma fracção de segundos, ao imaginar a partida de Nancy o coração quase lhe caiu aos pés e, foi com grande dificuldade que limpou duas lágrimas teimosas que começaram a deslizar-lhe pelo rosto abaixo.
Nancy também pareceu sentir a mesma dor, pois no momento em que Toddy tirou o lenço do bolso, ela colocou-lhe imediatamente as patas dianteiras no abdómen e olhou-o com um ar no qual se liam, uma imensa tristeza e ansiedade.
- Meu querido Toddy, dono, por favor não me mandes embora, porque eu só gosto de ti, não deixes que nos separem!...
Sem qualquer hesitação, o sensível treinador tratou prontamente de a sossegar, pois até julgou ver-lhe duas lágrimas que lhe escorriam pelos cantos dos olhos. A seguir, imprimindo à voz a maior convicção que lhe foi possível, disse ao casal visitante, que aquela cadela ainda precisava de mais algum tempo de treino para atingir o pico das suas capacidades e inventou que ela também estava a fazer uma medicação regular, razão pela qual naquela altura precisava de ficar com ele ainda por mais alguns meses.
Como haviam ficado sinceramente conquistados pela encantadora Nancy, prometeram que daí a três meses, voltariam sem falta e que nessa altura, fechariam o negócio sem mais discussões. Depois foram-se embora, sem mais nenhuma palavra. Logo que o portão eléctrico da casa se fechou atrás do descapotável brilhante que os transportava, a tranquilidade voltou novamente àquele local.
À noite, depois do jantar, confortavelmente sentado no sofá junto da esposa e dos dois filhos que brincavam com Nancy, Toddy revia na mente, o episódio acontecido na tarde daquele dia. Mais uma vez, deu consigo a pensar que, parecia que a cadela lhe adivinhava os pensamentos, pois frequentemente sem ele dizer o que quer que fosse, ela sabia perfeitamente se ele estava ansioso e apreensivo por algum motivo ou se pelo contrário, se sentia alegre e bem disposto com as circunstâncias da vida dele.
Os dias foram-se passando e Toddy acabou por esquecer-se daqueles momentos tão complexos. Além disso, numa certa manhã de Primavera, a esposa chegou a correr ao local onde estava a treinar Nancy e disse-lhe:
- Amor, trago notícias excelentes para ti. Vais ser pai novamente e agora são gémeos.
Quando ouviu as novidades Toddy nem cabia em si de contente! Depois de a abraçar e beijar, acariciou também a cabeça e as orelhas de Nancy que entretanto, se lhes tinha ido juntar também.

Como a família estava prestes a crescer, Toddy necessitou de consultar os serviços de uma empresa imobiliária. E foi o que fez alguns dias mais tarde, acompanhado pela esposa e pela sua inseparável companheira de quatro patas. Mas, depois de terminar a entrevista com o Dr. Silvano que era o gerente dessa firma, surgiu um imprevisto que poderia ter causado grandes transtornos a Toddy se não fossem a sagacidade e a perspicácia de Nancy.


(Caontinua)